Sàngó 

O Ebora Sàngó e Bàbá Egún

O Ebora descendente Sàngó, representa dinastia, neste sentido simbolizando a imagem coletiva dos Egúngún, enquanto que seu filho Egúngún representa a Ancestralidade, assim sendo podemos facilmente concluir que são duas faces da mesma moeda. Algumas pessoas afirmam que Sàngó teme Bàbá Egún, isso é no mínimo hilário, pois este poderoso Ebora não teme nada! O que acontece é que ele representa o elemento fogo, assim sendo, o que ele evita é o frio, representado pelos Egúngún. Más é bom lembrarmos ainda que segundo alguns mitos, Egúngún é o resultado de união sexual violenta entre Sàngó e Oya, pois esta queria muito ter filhos. Porém devido à falta de observação de suas proibições alimentares, bem como do descuido no cumprimento daquilo que lhe foi determinado pelo oráculo do Bàbàlàwò pariu Egúngún, e este veio com problemas na fala, tendo voz inarticulada e inumana. Podemos observar ainda que as vestes dos Ancestrais são na verdade, as vestes do Ebora Sángó, como podemos notar há sim grandes ligações entre eles e diferentemente do que pensam alguns, Sàngó é parte fundamental e integrante do Culto, tanto que na diáspora brasileira, o ritmo mais apropriado é o Alujá (Sàngó e Egúngún são dois níveis similares e opostos,  um representando dinastia, enquanto que o outro representa a ancestralidade. Por isso os ancestrais são louvados com o Alujá ). 

Enfim, é bom abordarmos este tema por que a
Ancestralidade é a "Raiz", e não se Cultua Òrìsà apropriadamente sem Cultuar Egúngún. Quanto ao Ebora Sàngó, há duas concepções, uma histórica e outra religiosa e algumas pessoas às vezes confundem as duas. Aqui tratei somente da que me é afeta, ou seja, a concepção de que este Ebola é o símbolo do elemento fogo, sendo o representante deste elemento sob o seu aspecto mais forte. Sàngó é um ícone de dinastia, e nesse aspecto em particular, torna-se a contrapartida de Bàbá Egún (Representante da Ancestralidade por excelência). Então podemos observar que os dois se locupletam, nunca percamos de vista que a Cultura Religiosa Indígena Tradicional Africana, bem como a Afro-descendente se baseiam em binários opostos. Sàngó enquanto representante de dinastia tem profunda ligação com Ikú, más é sempre bom lembrar que a morte segundo o pensamento africano não é o fim, más sim o início de uma nova etapa ou ciclo. Quanto a temores, por certo nosso pai Sàngó nada teme haja vista que é um Ebora, o que acontece é que na realidade, ele por ser um símbolo do quente ( Vermelho, Fogo ) evita o frio emanado por seu filho Egúngún, nada mais.

Oriki - Sàngó
Sángiri-làgiri, Olàgiri-kàkààkà-kí Igba Edun Bò O Jajú Mó Ni Kó Tó Pa Ni Je Ó Ké Kàrà, Ké Kòró S’ Olórò Dí Jínjìnnì Eléyinjú Iná Abá Won Jà Mà Jèbi Iwo Ní Mo Sá Di O Sàngó Ona Mogba Bi E Tu Bá Wó Ile Jejene Ni Mú Ewure Bi Sango Bá Wó Ile Jejene Ni Mú Osa Gbogbo

Que racha e lasca paredes. Ele deixou a parede bem rachada e pôs ali duzentas pedras de raio. Ele olha assustadoramente para as pessoas antes de castigá-las. Ele fala com todo o corpo. Ele faz com que a pessoa poderosa fique com medo. Seus olhos são vermelhos como brasas. Aquele que briga com as pessoas sem ser condenado porque nunca briga injustamente. É em ti que busco meu refúgio. Se um antílope entrar na casa, a cabra sentirá medo. Se Sàngó entra na casa, todos os Òrìsà sentirão medo.

 

 

Sàngó filho de Òrànmíyàn foi o quarto Rei de Oyo, antiga cidade de Eyeo ou Katunga.
Era tão forte que precisava sentar sobre o pilão, fazendo com que se creia que até hoje ele está sentado lá. Após a morte de seu pai compeliu seu irmão Àjàká a pagar-lhe tributos e posteriormente depôs Àjàká do trono. Sàngó era um Rei muito jovem, e sua juventude fez com que Olówu quisesse tirar partido disso, cobrando-lhe impostos exagerados. Isto fez com que se iniciasse uma violenta guerra entre eles. Sàngó demonstrou sua bravura e domínio da magia. Rolos de fumaça e fogo saiam de sua boca e narinas aterrorizando Olówu que, junto com seu exército, partiu em retirada. Seguidas vitórias fizeram com que Sàngó se tornasse tirano. Removeu o trono da cidade de Oko para Òyó, dando a ela o nome de Òyó-Koro. 

Certa vez decidiu realizar culto a sua mãe morta.
Ele não lembrava o nome dela, pois quando ela morreu ele era ainda um bebê.
Sua mãe era filha de Elempe, um Rei Nupe, aliado á Òrànmíyàn, que entregou-lhe a filha como esposa, nascendo então Sàngó. Este designou dois escravos, um tapa outro haussa, que fossem a terra Nupe oferecer uma vaca e um cavalo em sacrifício à sua mãe, e recomendou que os escravos prestassem muita atenção ao nome de sua mãe que seria citado durante o sacrifício. Os mensageiros foram recebidos com alegria e festejos por Elempe, avô de Sàngó. O escravo haussa esqueceu-se da ordem recebida e durante o sacrifício, o escravo tapa prestou atenção quando o praticamente do ritual disse: ?Torosi Ìyá gbódó, estamos prestando culto oferecido por seu filho Sàngó?. Assim o escravo tapa gravou o nome Torosi. Retornando, o escravo tapa foi homenageado e recompensado, enquanto que o haussa foi punido com cento e vinte cortes de navalhas espalhados por todo o corpo.
As esposas de Sàngó acharam as cicatrizes belíssimas e consideraram que tais marcas deveriam ser feitas nos membros da família real, como sinal de nobreza. Sàngó aceitando a opinião das esposas determinou que Olowala Bàbájegbe Osan e Oru viessem fazer incisões em seu corpo. Mas não suportou nada além de dois cortes longitudinais feitos um em cada braço, desde os ombros até os punhos, recebendo assim o Título de Akeyo.  
Quando resolveu tomar Òyó-Koro enviou o escravo haussa até o Rei Olòyó-Koro para que exibisse tão belas cicatrizes. O Rei e seus ministros quiseram que as cicatrizes fossem feitas neles, e chamaram Osan e Oru para fazê-las. Três dias depois que as cicatrizes tinham sido feitas, enquanto o Rei e seus ministros tinham o corpo dolorido, Sàngó atacou e venceu. Portanto uma das lendas falam que a mãe de Sàngó é Torosi, outras falam que sua mãe é Yamasse e ainda outras falam que é Yemoja.

Sàngó reinou por sete anos e construiu seu castelo no topo do morro chamado Òkè Àjàká. 
Querendo testar uma de suas poções mágicas, subiu o morro. O teste fez com que uma tempestade caísse sobre o lugar, raios atingiram o palácio e várias construções ao seu redor.
Muitas esposas e filhos de Sàngó morreram. Deprimido ele acaba abdicando ao trono e retira-se para a companhia de seu avô Elempe.

Outro mito conta que Sàngó irado contra opositores dentro de seu reinado, mata cento e sessenta deles. Parte então em uma jornada acompanhado de poucos seguidores, dentre eles seu escravo favorito, chamado Bírí. Mas desgostoso com seu rei, Bírí, Omirán e outros o abandonaram. Sentindo-se solitário Sàngó põe fim a sua vida. Ao saberem do suicídio do Rei, os escravos Bírí e Omirán também põe fim a suas vidas, na mesma cidade de Kòso.
Seu primo Omo Sanda suicida-se em Papo. Baáyànni sua irmã suicida-se em Sele.
Obei suicida-se em Jàkùta. Oyá sua esposa favorita suicida-se em Irá.
Outra versão mitológica de Sàngó diz que ele era um Rei poderoso.
Quando alguém, mesmo seus súditos, o desrespeitasse ele botava fogo pela boca e fazia com que qualquer um se arrependesse pelo comportamento tomado. Estes fatos chegaram ao povo que tomaram conhecimento dos males que a impulsividade do Rei causava.
Todos voltaram-se contra Sàngó, e o desentendimento entre os dois conselheiros causou grande descontentamento popular. Sem suportar o clima em Òyó, Sàngó foge levando todas as suas coisas. Acompanhado por Òsun, Oyá, Obà, Òsùmàré, Dada, Oru e Tìmì andou sem destino pois não tinha para onde ir. Logo surgiram intrigas também entre seus companheiros, e Sàngó logo viu-se acompanhado somente por Oyá. Sem saber o que fazer, aproximou-se da árvore chamada Ààyàn que estava a beira da estrada, e enforcou-se.
Este lugar é chamado de Kòso. Sua esposa Oyá seguiu rumo ao norte, em direção a cidade de Irá e transformou-se em um rio. Chegando na cidade a notícia de que o Rei tinha se enforcado o povo gritava ?Oba so? (O Rei se enforcou). Os poucos amigos que restaram na cidade revoltaram-se e seguiram para a cidade de Ibàribá para aprender a magia com o intuito de vingarem-se dos inimigos de Sàngó. Aprenderam a gerar fogo na casa das pessoas e elas acreditavam que o fogo era gerado pelo rei morto. Decidiram então pedir desculpas á Sàngó, mudando a expressão ?Oba so? para ?Oba ko so? (O Rei não se enforcou). Ficando o local do enforcamento chamado de Kòso. Querendo mostrar sua imortalidade, Sàngó lança raios durante as tempestades e por esse motivo recebe o Título de Jàkùta (O atirador de pedras), e por isso as pessoas que morrem atingidas por raios são enterradas como ?oni-Sàngó? (aquele que cultua Sàngó). Outros dizem que os seguidores de Sàngó foram para Haubà aprendendo lá a trabalhar com os raios, e começaram a lançá-los nos arredores de Òyó. Houve perdas de vidas e de propriedades, fazendo com que o povo entrasse em pânico, permitindo que os amigos Sàngó espalhassem a noticia de que o Rei não se enforcou, mas sim tinha ascendido para o Céu, e os raios eram sua vingança sobre os que diziam que ele tinha se enforcado. E a partir daí todos deveriam dizer Oba ko so! Iniciou-se os Cultos para Sàngó em Òyó, e os inimigos ofereciam-lhe bois, carneiros, aves, obi, orógbó e epo pupa, e logo um Santuário foi erguido na árvore de Ààyàn e o local foi batizado como Kòso (não se enforcou).